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Todos nós somos, em
certa medida, cépticos. Uns mais do que outros é certo.
A história seguinte
serve para ilustrar que não basta ser céptico, é
preciso estar permanentemente atento, e questionar o nosso próprio
juizo de valores:
Contou-me outro dia um conhecido,
pessoa culta e racional, que embora não acreditasse em forças
sobrenaturais, tinha um caso na família que não apresentava
qualquer explicação lógica.
Teria este meu amigo um familiar
- chamêmos-lhe João - que, desde tenra idade mostrava uma
espantosa propensão para adivinhar a localização
de objectos escondidos por terceiros. Seria esta habilidade acompanhada
de um enorme cepticismo do próprio, que embora sistematicamente
encontrasse os ditos objectos nos locais mais absurdos, custava-lhe a
admitir que pudesse ter tal dom sobrenatural. O desconforto seria tal
que a dada altura o João se teria recusado a prosseguir com demonstrações
desse poder.
Após algumas perguntas
ao meu amigo, fui informado que as sessões de "perdidos e
achados" se desenrolavam da seguinte maneira:
João pedia a alguém
da família para esconder um objecto. Essa pessoa, acompanhada pela
irmã de João, procedia então à sua ocultação.
Depois, chamando o João, este iria invariavelmente encontrar o
objecto escondido, sem trocar palavra ou sinais com a irmã.
Quando perguntei ao meu amigo
se alguma vez teriam experimentado a proeza sem a presença do familiar
que escondia o objecto, informou-me que não sabia. À minha
pergunta seguinte - se tinham experimentado sem a presença da irmã
- a mesma resposta.
Percebi, com o desenrolar da
conversa, que o meu amigo já teria contado esta história
inúmeras vezes, e aparentemente nunca ninguém lhe teria
dado uma explicação plausível para os factos. Tal
faria com que ele, embora duvidando de uma explicação de
indole sobrenatural, se sentisse inclinado a manter um espirito aberto.
Agora o comentário:
Sendo uma história que
este meu amigo céptico ouviu da sua familia em tenra idade, fez
com que se encontrasse muito mais receptivo a acreditar nela. As moscas
que o meu irmão mais velho exibia decapitadas no chão da
cozinha, empunhando orgulhosamente uma faca, fizeram prova irrefutavel
da sua destreza e reflexos. Só muito mais tarde, já adulto,
ao contar pela enésima vez esta proeza a alguém, me apercebi
que ele teria apanhado as moscas previamente, decapitando-as de seguida,
e encenado todo o episódio. As histórias que nos são
contadas na nossa infância, principalmente por pessoas de confiança,
tornam-se verdades insufismáveis que carregamos conosco para o
resto da vida. É por isso que a maioria das pessoas segue a religião
dos pais, mas isso é outra guerra...
Voltando ao meu amigo. O facto
do João ser céptico quanto ao poder que exibia, tendo posteriormente
abandonando-o por completo, só reforçava a credibilidade
que o acto merecia.
Finalmente, a ausência
de explicações lógicas plausíveis por parte
de terceiros indicavam que se trataria mesmo de um fenómeno inexplicável.
No entanto, o meu amigo não saberia todos os pormenores da experiência,
nomeadamente qual a influência da irmã, e se alguma vez alguém
se teria dado ao trabalho de pôr á prova o João, seguindo
uma metodologia minimamente científica. Este desconhecimento revela,
quanto a mim, que nunca ninguém teria verdadeiramente questionado
a história.
A hipótese de solução
Sendo óbvio para mim,
expliquei ao meu amigo que sem ter todos os dados na mão, dificilmente
poderia fazer um juizo quanto à origem de tal poder. O que não
significaria que a única explicação fosse por via
do sobre natural, antes pelo contrário. Poderia o João ter
facilidade em ler a expressão das pessoas, ou, mais provávelmente,
ser-lhe-ia fácil, através das pequenas expressões
faciais e corporais involuntárias da irmã, apreceber-se
quando se encontrava perto do objecto escondido. Esta empatia até
se poderia dar a um nível subconsciente, assustando assim o próprio
João.
Estas minhas explicações
surpreenderam o meu amigo, que após vinte ou trinta anos a contar
a mesma história se viu pela primeira vez confrontado com uma teoria
simples e lógica, que justificaria perfeitamente os acontecimentos.
Se foi suficiente para destruir uma crença de estimação
não sei, mas que ele se aprecebeu que teria feito um juizo baseado
em dados insuficientes, acho que sim.
Moral da história
Não vale a pena tentar
mudar os fanáticos, os crentes, os cartomantes, astrólogos,
ovniólogos e todas as outras pessoas que, por ingenuidade ou busca
do lucro fácil, demonstram acreditar em causas sobrenaturais. Mas
para aqueles que, por conformismo ou perguiça mental, optam por
assumir algum esoterismo nas suas vidas, acreditando em explicações
extraordinárias para factos ordinários, vale sempre a pena
apontar-lhes os erros de raciocínio.
Mesmo para pessoas cépticas,
é possível acreditar em poderes sobre naturais. Não
basta ser-se céptico, é preciso praticar-se permanentemente
o cepticismo, principalmete quando confrontados com explicações
extraordinárias. Alegações invulgares carecem de
provas invulgares.
Miguel Krippahl
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